Volto a escrever-te porque de mim só restam palavras. Mas até
estas estão débeis. É por isso que não escrevo nem insignificâncias desde a
última carta que te enviei; para poupar os poucos monossílabos que ainda tenho
para ti. Sabes que contigo aprendi que o amor e a literatura partilham o mesmo
lar? Tenho este excesso de idolatria que guardo para mim. Agora o meu amor por
ti deu corpo a um eco, e a minha literatura resume-se a esta carta. O longo
espaço de tempo desde a última carta tem sido reticências de suas palavras lá
escritas. Tornei esta minha vida num campo de batalha; onde só esbravejam meus
sofrimentos e pelos teus tenho ânsias que venham em noite de névoa. Combato-me
intimamente para não partir em busca por desertos, mas a verdade é que não te
saberia amar para além das palavras que aqui dito. Não te saberia dar paixão a
teu lado, é necessária esperança para mantê-la viva. Encontro-me nesta
pertinência por teu desaparecimento; peço-te apenas o menor dos teus poemas. Estou
certa de que ficaria mais vazia de amor. Tê-lo-ia que partilhar com essa folha
de papel que me enviarias. Talvez seja melhor não me escreveres; envia-me novas
tuas. Tenho-me consolado com notícias […].
Tenho pensado se ao menos te lembras de mim. Se te lembras
de meus cabelos, de meus olhos. És para mim não só um amor, mas também o
contentamento para seguir em frente, nesta prisão, livre de outros amores que
desprezo. Valeria passar o resto de minha vida lavada em lágrimas para assistir
a uma última prenuncia tua? Estou certa de que sim; por isso me prendo a esta
agonia. Sofrer por ti mais do que alguma outra mulher já sofreu, na esperança
de que só assim serei merecedora de teus afetos.