quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Carta - [Primeira]



Escrevo-te porque, de outro modo, não chegarias a ter conhecimento de minha aflição. Tenho a ânsia de que percebas o porquê de seres para mim mais do que aquele que faz parte não só de minha vida, mas também de minh’alma. Porventura não mereças meus arrebatamentos, mas tenho eu o desgosto de ficar calada e que passes tua vida sem o saber. Antes, estava acostumada a seguir-me; seguir a minha sombra –, porém saberia que também me havias de encontrar, eras tu quem me encontrava afinal. Tenho dó de não me procurares mais vezes. E mais, tenho desgosto de deixares de me procurar. Tornas-te em angústia os dias que aqui passava por deleite. Nunca soube o porquê de me deixares ao desamparo. Sabes que, todavia, continuo em diligência por entre os nossos passos? Tenho-me consentido a acreditar, noite após noite, que só terás um indubitável lugar como destino. Se ao menos não desconhecesse a causa da tua falta de comparecimento! Tenho perdido noites acordada, acreditas? Tenciono em não querer existir se não for por ti. Este anseio perturba-me cada vez mais. Continuas sem me retribuir todas as palavras que te tenho escrito; e eu aqui, sem tino, despejada no sentimento de te estimar. Tenho sonhado, desperta, que no dia seguinte tornas onde me deixaste; dirás que por mim tens todo o teu amor e que somente não regressaste antes porque não te fora possível. Ou não sabias ao certo a minha morada de sempre. Mas não; estou certa que não virás – o meu crer não tem fim! Esta quimera termina sempre que o novo dia começa a manifestar-se.
Será que regressarás por fim? Responderás a esta carta que te envio em profundo sofrimento? Sinto-me presa a este sentimento de forma irrevogável, do qual não me quero desenredar e, ao mesmo tempo, sou tao livre de ti que o chego a afrontar. Volta, amor! Preciso que me suscites a razão pela qual me demoro nesta insolência. Desde que me beijaste que me tornei tua prisioneira, neste ímpeto de dissabores. Não me tenho conseguido livrar de ti, deste sentimento por ti nem da afeição que te ganhei. Perdoa-me se te fiz crer que te desaproximasses; quero realmente que te acerques de mim. Suplico-te; não me dês o teu amor, mas sim este ânimo de o desejar para mim. A agonia deste meu desejo já é bastante para que este amor seja impetuoso. Deseja-me veementemente todas as resignações a que possas proceder, no capricho de que teu amor seja suplicado. Escreve-me; escreve-me e não me refutes. Padeço pela carta mais aprazível vinda de tuas mãos e que às minhas jamais chegue para que em pranto lamente este amor. Escreve-me; escreve-me em palavras a tua paixão por mim e deixa-me continuar nesta incerteza que já me é todo o teu amor.

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