Escrevo-te porque, de
outro modo, não chegarias a ter conhecimento de minha aflição. Tenho a ânsia de
que percebas o porquê de seres para mim mais do que aquele que faz parte não só
de minha vida, mas também de minh’alma. Porventura não mereças meus
arrebatamentos, mas tenho eu o desgosto de ficar calada e que passes tua vida
sem o saber. Antes, estava acostumada a seguir-me; seguir a minha sombra –, porém
saberia que também me havias de encontrar, eras tu quem me encontrava afinal.
Tenho dó de não me procurares mais vezes. E mais, tenho desgosto de deixares de
me procurar. Tornas-te em angústia os dias que aqui passava por deleite. Nunca soube
o porquê de me deixares ao desamparo. Sabes que, todavia, continuo em diligência
por entre os nossos passos? Tenho-me consentido a acreditar, noite após noite,
que só terás um indubitável lugar como destino. Se ao menos não desconhecesse a
causa da tua falta de comparecimento! Tenho perdido noites acordada, acreditas?
Tenciono em não querer existir se não for por ti. Este anseio perturba-me cada
vez mais. Continuas sem me retribuir todas as palavras que te tenho escrito; e
eu aqui, sem tino, despejada no sentimento de te estimar. Tenho sonhado,
desperta, que no dia seguinte tornas onde me deixaste; dirás que por mim tens
todo o teu amor e que somente não regressaste antes porque não te fora possível.
Ou não sabias ao certo a minha morada de sempre. Mas não; estou certa que não
virás – o meu crer não tem fim! Esta quimera termina sempre que o novo dia
começa a manifestar-se.
Será que regressarás
por fim? Responderás a esta carta que te envio em profundo sofrimento? Sinto-me
presa a este sentimento de forma irrevogável, do qual não me quero desenredar
e, ao mesmo tempo, sou tao livre de ti que o chego a afrontar. Volta, amor!
Preciso que me suscites a razão pela qual me demoro nesta insolência. Desde que
me beijaste que me tornei tua prisioneira, neste ímpeto de dissabores. Não me
tenho conseguido livrar de ti, deste sentimento por ti nem da afeição que te
ganhei. Perdoa-me se te fiz crer que te desaproximasses; quero realmente que te
acerques de mim. Suplico-te; não me dês o teu amor, mas sim este ânimo de o
desejar para mim. A agonia deste meu desejo já é bastante para que este amor
seja impetuoso. Deseja-me veementemente todas as resignações a que possas
proceder, no capricho de que teu amor seja suplicado. Escreve-me; escreve-me e
não me refutes. Padeço pela carta mais aprazível vinda de tuas mãos e que às
minhas jamais chegue para que em pranto lamente este amor. Escreve-me;
escreve-me em palavras a tua paixão por mim e deixa-me continuar nesta
incerteza que já me é todo o teu amor.
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