terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Carta - [Segunda]



Volto a escrever-te porque de mim só restam palavras. Mas até estas estão débeis. É por isso que não escrevo nem insignificâncias desde a última carta que te enviei; para poupar os poucos monossílabos que ainda tenho para ti. Sabes que contigo aprendi que o amor e a literatura partilham o mesmo lar? Tenho este excesso de idolatria que guardo para mim. Agora o meu amor por ti deu corpo a um eco, e a minha literatura resume-se a esta carta. O longo espaço de tempo desde a última carta tem sido reticências de suas palavras lá escritas. Tornei esta minha vida num campo de batalha; onde só esbravejam meus sofrimentos e pelos teus tenho ânsias que venham em noite de névoa. Combato-me intimamente para não partir em busca por desertos, mas a verdade é que não te saberia amar para além das palavras que aqui dito. Não te saberia dar paixão a teu lado, é necessária esperança para mantê-la viva. Encontro-me nesta pertinência por teu desaparecimento; peço-te apenas o menor dos teus poemas. Estou certa de que ficaria mais vazia de amor. Tê-lo-ia que partilhar com essa folha de papel que me enviarias. Talvez seja melhor não me escreveres; envia-me novas tuas. Tenho-me consolado com notícias […].
Tenho pensado se ao menos te lembras de mim. Se te lembras de meus cabelos, de meus olhos. És para mim não só um amor, mas também o contentamento para seguir em frente, nesta prisão, livre de outros amores que desprezo. Valeria passar o resto de minha vida lavada em lágrimas para assistir a uma última prenuncia tua? Estou certa de que sim; por isso me prendo a esta agonia. Sofrer por ti mais do que alguma outra mulher já sofreu, na esperança de que só assim serei merecedora de teus afetos.

1 comentário:

  1. Exaltante! Só mudava as 3 últimas palavras; não sei porquê, acho que a pele delas é demasiado científica.

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