terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Injúrias
Escrevo-te
porque me és um fantasma. Dediquei-me a ti de tal forma que nem por
sombras me conseguiria reconhecer caso me visse agora nessa altura.
Perdida estou agora. Mas desvairada estava eu antes de ti me livrar.
Acreditei piamente que o amor verdadeiro é aquele que nos consome, por
dentro e por fora – enganada estava. Verdadeiro amor é aquele que nos
deixa livres e em paz. Desvarios. Tornei a minha obsessão na mais
profunda crença. Religiosa de amores. Crente na felicidade que nasce nas
flores murchas. Mãos postas na esperança pelo que se sabe não realizar.
Beijas-me morta, entre os outros que padecem, tal como eu, mas que,
certeza tenho, não chegaram a amar tanto.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Ai! Tudo o que eu sabia
Ai! Tudo o que eu sabia,
nossos corações crentes,
entre eternos poentes,
- se fez noite, meu dia!
Outrora me julgara forte;
sabia eu como vive,
e hoje não me consigo erguer:
- minha sina, tua morte!
Sou agora feita de neve,
depois de tua partida, breve,
ficou preso a mim o mistério;
por o qual agora choro,
deixo o lugar onde moro,
- tua casa? Cemitério.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Carta - [Segunda]
Volto a escrever-te porque de mim só restam palavras. Mas até
estas estão débeis. É por isso que não escrevo nem insignificâncias desde a
última carta que te enviei; para poupar os poucos monossílabos que ainda tenho
para ti. Sabes que contigo aprendi que o amor e a literatura partilham o mesmo
lar? Tenho este excesso de idolatria que guardo para mim. Agora o meu amor por
ti deu corpo a um eco, e a minha literatura resume-se a esta carta. O longo
espaço de tempo desde a última carta tem sido reticências de suas palavras lá
escritas. Tornei esta minha vida num campo de batalha; onde só esbravejam meus
sofrimentos e pelos teus tenho ânsias que venham em noite de névoa. Combato-me
intimamente para não partir em busca por desertos, mas a verdade é que não te
saberia amar para além das palavras que aqui dito. Não te saberia dar paixão a
teu lado, é necessária esperança para mantê-la viva. Encontro-me nesta
pertinência por teu desaparecimento; peço-te apenas o menor dos teus poemas. Estou
certa de que ficaria mais vazia de amor. Tê-lo-ia que partilhar com essa folha
de papel que me enviarias. Talvez seja melhor não me escreveres; envia-me novas
tuas. Tenho-me consolado com notícias […].
Tenho pensado se ao menos te lembras de mim. Se te lembras
de meus cabelos, de meus olhos. És para mim não só um amor, mas também o
contentamento para seguir em frente, nesta prisão, livre de outros amores que
desprezo. Valeria passar o resto de minha vida lavada em lágrimas para assistir
a uma última prenuncia tua? Estou certa de que sim; por isso me prendo a esta
agonia. Sofrer por ti mais do que alguma outra mulher já sofreu, na esperança
de que só assim serei merecedora de teus afetos.
domingo, 15 de dezembro de 2013
Inverno, de meses calmos
Inverno, de meses calmos,
que me trazes o fulgor
- de um, de outro amor –
que me sinto eu a sete palmos;
e espero aqui amarguradamente,
entre teu cantar
- de outro, que me faça amar –
em minha alma fique presente!
Leva com o vento a amargura,
deste sentimento que não tem cura:
afasta de vez meus medos.
E não me deixes cair
entre amores – vou subir! –,
enlaça em mim os teus dedos.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Carta - [Primeira]
Escrevo-te porque, de
outro modo, não chegarias a ter conhecimento de minha aflição. Tenho a ânsia de
que percebas o porquê de seres para mim mais do que aquele que faz parte não só
de minha vida, mas também de minh’alma. Porventura não mereças meus
arrebatamentos, mas tenho eu o desgosto de ficar calada e que passes tua vida
sem o saber. Antes, estava acostumada a seguir-me; seguir a minha sombra –, porém
saberia que também me havias de encontrar, eras tu quem me encontrava afinal.
Tenho dó de não me procurares mais vezes. E mais, tenho desgosto de deixares de
me procurar. Tornas-te em angústia os dias que aqui passava por deleite. Nunca soube
o porquê de me deixares ao desamparo. Sabes que, todavia, continuo em diligência
por entre os nossos passos? Tenho-me consentido a acreditar, noite após noite,
que só terás um indubitável lugar como destino. Se ao menos não desconhecesse a
causa da tua falta de comparecimento! Tenho perdido noites acordada, acreditas?
Tenciono em não querer existir se não for por ti. Este anseio perturba-me cada
vez mais. Continuas sem me retribuir todas as palavras que te tenho escrito; e
eu aqui, sem tino, despejada no sentimento de te estimar. Tenho sonhado,
desperta, que no dia seguinte tornas onde me deixaste; dirás que por mim tens
todo o teu amor e que somente não regressaste antes porque não te fora possível.
Ou não sabias ao certo a minha morada de sempre. Mas não; estou certa que não
virás – o meu crer não tem fim! Esta quimera termina sempre que o novo dia
começa a manifestar-se.
Será que regressarás
por fim? Responderás a esta carta que te envio em profundo sofrimento? Sinto-me
presa a este sentimento de forma irrevogável, do qual não me quero desenredar
e, ao mesmo tempo, sou tao livre de ti que o chego a afrontar. Volta, amor!
Preciso que me suscites a razão pela qual me demoro nesta insolência. Desde que
me beijaste que me tornei tua prisioneira, neste ímpeto de dissabores. Não me
tenho conseguido livrar de ti, deste sentimento por ti nem da afeição que te
ganhei. Perdoa-me se te fiz crer que te desaproximasses; quero realmente que te
acerques de mim. Suplico-te; não me dês o teu amor, mas sim este ânimo de o
desejar para mim. A agonia deste meu desejo já é bastante para que este amor
seja impetuoso. Deseja-me veementemente todas as resignações a que possas
proceder, no capricho de que teu amor seja suplicado. Escreve-me; escreve-me e
não me refutes. Padeço pela carta mais aprazível vinda de tuas mãos e que às
minhas jamais chegue para que em pranto lamente este amor. Escreve-me;
escreve-me em palavras a tua paixão por mim e deixa-me continuar nesta
incerteza que já me é todo o teu amor.
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